Virgindade perpétua de Maria

Virgindade perpétua de Maria
 
9.1.  Conceito de virgindade perpétua de Maria

** O dogma da virgindade perpétua de Maria significa que ela foi sempre virgem.
-   Assim, Maria permaneceu sempre virgem, antes do parto, durante o parto e depois do parto.
-   Maria concebeu Jesus Cristo por ação do Espírito Santo, sem ter relações sexuais com José, seu esposo.
-   A afirmação da virgindade perpétua de Nossa Senhora pertence à fé cristã.
-   O Concílio de Latrão preconizou como verdade a Virgindade Perpétua de Maria, no ano 649, expressando-se deste modo:
è “Se alguém não confessa segundo os Santos Padres que a santa e sempre virgem e imaculada Maria seja, no sentido próprio e segundo a verdade, Mãe de Deus, enquanto própria e verdadeiramente no final dos séculos concebeu do Espírito Santo sem sêmen e deu à luz sem corrupção, permanecendo mesmo depois do parto a sua indissolúvel virgindade, o próprio Deus Verbo nascido do Pai antes de todos os séculos, seja condenado”.

9.2.  Dados da fé

A) Bases bíblicas

** O Novo Testamento atesta que Maria foi mesmo virgem.
-   No Novo Testamento, há duas tradições autônomas que dão testemunho claro da virgindade de Maria, uma reforçando a outra: Evangelho de São Mateus (1,18-25) e Evangelho de São Lucas (1,26-38).
-   De acordo com as tradições mateana e lucana, Maria concebe e gera Jesus por obra do Espírito Santo (Mt 1,20;Lc 1,35).
-   Mateus e Lucas são unânimes em afirmar que José não teve relações sexuais com Maria, não a engravidando, nem outro varão (Mt 1,16.18-25;Lc 1,31.34-35;3,24).
-   Como virgem e mãe, Maria é a única origem humana de Jesus Cristo (Mt 1,16-25;Lc 1,27.35).

B) Magistério

** A virgindade perpétua de Maria constitui antigo dogma da Igreja, proclamado pelo magistério depois de sua maternidade divina.
-   No Símbolo Apostólico confessamos: “Nasceu da Virgem Maria”.
-   O Credo Niceno-constantinopolitano também deixa claro: “se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria”.
-   S. Inácio de Antioquia (+110) atestava: “O Filho de Deus verdadeiramente nasceu de uma virgem” (Carta aos Esmirnenses 1,1).

** Os concílio ecumênicos definem a verdade da virgindade perpétua de Maria.
-   Em 451, o Concílio de Calcedônia declarou que Jesus é “nascido de Maria Virgem”.
-   Em 553, o Concílio de Constantinopla II declarou: “Encarnou-se da gloriosa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria”.
-   Em 649, o Concílio de Latrão fez da virgindade de Maria um autêntico dogma.

** De maneira clara e precisa, o Papa Paulo IV afirmou a noção da virgindade permanente de Maria.
-   Na bula “Cum quorumdam hominum”, datada de 7 de agosto de 1555, o Papa Paulo IV afirmou que Nossa Senhora é sempre virgem
-   Ou seja, Maria é virgem antes do parto, no parto e depois do parto.
-   O dogma da virgindade perpétua de Maria tem sido reiterado por outros papas.

** O Concílio Vaticano II preconizou a concepção virginal de Jesus Cristo em Maria.
-   Concílio afirma que o nascimento de Jesus sagrou a integridade virginal de Maria.
-   O Concílio diz textualmente:
è     No dia de natal, a “Mãe de Deus mostrou cheia de alegria aos pastores e magos seu Filho primogênito, que não lhe violou, mas sagrou a integridade virginal” (L. G., no. 57).

** O Catecismo da Igreja Católica mostra que sempre a Igreja acreditou na virgindade de Maria (nos. 496-507).
-   O Catecismo afirma que a Igreja, desde os tempos apostólicos, sempre professou que Maria concebeu Cristo somente pelo poder do Espírito Santo (no. 496).
-   No Catecismo, os relatos evangélicos são claros ao preconizarem que Maria é mãe virginal, pois a concepção de Jesus Cristo foi obra do Espírito Santo (no. 497).
-   De acordo com o Catecismo, o dogma significa que Maria foi virgem antes de conceber Jesus, no parto e depois que Jesus nasceu (no. 499).
-   O Catecismo esclarece que Jesus é Filho do Pai celeste segundo a natureza divina e Filho de Maria segundo a natureza humana, mas propriamente Filho de Deus nas duas naturezas, havendo nele uma só Pessoa, a divina (no. 498).

C) Senso dos fiéis

** A grande Tradição da Igreja é unânime em afirmar a virgindade perpétua de Maria, não só na palavra dos Santos Padres e pela liturgia, mas, sobretudo, por meio do senso dos fiéis.
-   Os amantes de Cristo não suportam ouvir dizer que a Mãe de Deus deixou um dia de ser virgem (São Basílio).
-   Afirma que Maria deixou de ser virgem é um crime abominável e uma blasfêmia (Santo Ambrósio).
-   Não dá para pensar, em absoluto, que naquela carne em nascer a Verdade possa perecer a integridade (virginal) (Santo Agostinho)
-   Aos corações dos fiéis repugna submeter Maria à maldição de Eva (Pascásio Radberto, século IX, referindo-se ao parto entre dores de Gn 3,16).

** A expressão “a Virgem” tornou-se cedo (desde o século II) o nome próprio de Maria, como foi o caso da designação “Cristo” para Jesus.
-   Os Santos Padre usam “Virgem” três vezes mais do “Mãe de Deus” (3.567 contra 1.009).
-   Refere Santo Epifânio:
è     “Quem, por acaso, e quando ousou pronunciar o nome de Maria sem acrescentar de imediato ‘a Virgem’, quando interrogado”.
-   Aliás, até hoje, “a Virgem” é o nome que o povo mais usa para se referir a Maria.
-   Tornou-se até uma exclamação corrente: Virgem Maria, Virgem, Vixe, Ixe.

** Sempre houve na história contestações contra a virgindade de Maria.
-   Mas a Igreja nunca cedeu às contestações.
-   A Igreja guardou a fé da grande Tradição, convencida de que a virgindade de Maria pertence à esfera do mistério e do milagre.
-   Essa é uma área da exclusiva competência de Deus, como explica o anjo a Maria (Lc 1,37).

9.3.  Explicação teológica da virgindade perpétua de Maria

A) A virgindade de Maria implica a virgindade do corpo, dos sentidos e do coração

** A virgindade de Maria implica a virgindade do corpo, dos sentidos e do coração.

  Virgindade do corpo: é a normal integridade fisiológica.
î Para os Padres da Igreja, a virgindade de Maria compreendida sua integridade biológica, sem, contudo, se reduzir a ela.

  Virgindade dos sentidos: é a não experiência de relação sexual.
î Maria não teve relação sexual com varão.

  Virgindade do coração: é a entrega total e perpétua a Cristo a seu Reino.
î Tal entrega é a essência da virgindade, que Maria realizou de forma insuperável.

** Assim sendo, a virgindade de Maria não é mera virgindade simbólica ou metafórica.
-   Tal visão simbólica e metafórica é o pensamento de alguns antropólogos (J. Campbell) e de muitos modernos.
-   Essa visão não procede porque os fatos da revelação são muito encarnados, corpóreos e mesmo viscerais, embora sempre a serviço do Espírito.

B) A virgindade de Maria é integral

** A virgindade de Maria é integral.
-   A virgindade de Maria é completa, não só no sentido da real entrega do corpo e alma a Deus, mas também no sentido de uma entrega perpétua.
-   Em outras palavras, Maria não foi só toda de Deus, mas foi também sempre de Deus.
-   Portanto, a prestação de Maria não foi passageira, mas permanente e total, sem resto algum.
-   Maria é a “virgem absoluta” (Santo Tomás).

** Por viver a virgindade total e perpétua, Maria se sentiu tão plenificada por Cristo, o consumador de tudo, que não podia conceber outro filho.
-   O amor ao seu Filho único respondia totalmente às suas expectativas de mulher (A. Serra).
-   Depois que foi invadida e possuída totalmente pelo Espírito de Deus, Maria não podia pertencer mais a homem nenhum.
-   Por isso Orígenes afirmava:
è     “A dignidade de Maria exige que aquele corpo, destinado a servir ao Verbo e sobre o qual descera o Espírito Santo, na conhecesse relação sexual com homem nenhum”.

** A virgindade plena de Maria faz dela a virgem por antonomásia.
-   Por isso, Maria é “sempre-virgem” (“aeiparthenos”) ou ainda a virgem perpétua.
-   Na iconografia oriental, a figura da Mãe de Deus traz em geral no véu três estrelas, simbolizando justamente sua tríplice virgindade.

C) Virgem antes do parto, no parto e depois do parto

** A virgindade de Maria é perpétua, ou seja, antes do parto, no parto e depois do parto.
-   A reflexão teológica cedo especificou os três momentos do mistério/milagre da virgindade perpétua de Maria: antes do parto, no parto e depois do parto.
-   Isso já nos inícios do século IV, com S. Zeno de Verona, S. Pedro Crisólogo e Santo Agostinho.

  Virgindade antes do parto: Jesus nasce da concepção operada pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria.
î Maria foi virgem antes do parto.
î A virgindade de Maria antes do parto é um dado incontestável do Novo Testamento.
î A concepção de Jesus não foi fruto de relações matrimoniais de Maria com José, mas aconteceu por pura graça e iniciativa de Deus, envolvendo a resposta humana e a participação dela.
î A concepção de Jesus. A encarnação do Verbo de Deus constitui uma nova criação, um presente de Deus aos homens.
î A Igreja sempre afirmou a virgindade de Maria.
î Houve pessoas que negaram a virgindade de Maria fora e dentro da Igreja, de tal modo que defendiam que Jesus seria filho de José ou de outro homem.
î Fora da Igreja, vários negaram a virgindade de Maria: o filósofo pagão Celso, Juliano Apóstata, os judeus, propagando a lenda negra da “origem ilegítima de Jesus”, assim como os racionalistas hoje.
î Dentro da Igreja, alguns negaram a virgindade de Maria: os ebionitas, alguns gnósticos tais como Carpócrates e Cerinto, bem como vários exegetas atuais, que tratam a virgindade de Maria como mito, lenda ou mero símbolo.
î É preciso dizer que essas posições críticas, na verdade heréticas, são afirmações de minoria, das quais o povo fiel sempre tomou distância e que o magistério da Igreja reprovou terminantemente.

  Virgindade no parto: Maria permaneceu virgem no parto.
î Jesus não violou a integridade virginal de Maria, mas a sagrou.
î O fato de que Maria tenha permanecido virgem no parto sob o ponto de vista físico e moral constitui um dado de fé, definido pela Igreja.
î Mas os documentos eclesiásticos nunca entraram em minúcias, nem deram explicações biológicas e ginecológicas do fato.
î A teologia tem procurado explicitar e aprofundar este aspecto do dogma mariano, embora considere o ponto mais delicado.
î Diversos especialistas interpretam o fato como especial milagre de Deus.
î O parto virginal, como a concepção virginal, só se explica porque a Deus nada é impossível (Lc 1,37).
î Santo Agostinho diz:
&& “Nessas coisas, a razão do fato está na onipotência de quem o fez”.
î Santo Tomás afirma, sem hesitação, que o parto de Maria foi “totalmente miraculoso”.
î A Tradição da Igreja mostra uma convergência impressionante em torno da virgindade de Maria no parto.

## Liturgia:
++: O mais antigo prefácio mariano, que remota ao século VII e é fixado em 1095, reza: “E conservando a glória de sua virgindade, Maria deu ao mundo a Luz eterna”.
++: A oração da missa de 19 de dezembro diz: “Ó Deus, que revelastes ao mundo o esplendor de vossa glória pelo parto virginal de Maria”.
++: Ademais, como fez notar Santo Ambrósio, o Credo Apostólico declara expressamente: “Nasceu da Virgem Maria”, e não apenas “foi concebido da Virgem Maria”.

## Padres da Igreja:
++: Santo Inácio de Antioquia fala do parto da Virgem Maria como um mistério clamoroso (“parto admirável”, diz o Papa Pio XII na Mystici Corporis).
++: Há nesse ponto, entre os Padres da Igreja, imensa unanimidade, com somente duas exceções (na verdade uma e meia): apenas Tertuliano e Orígenes, e este só em parte, dizem que o parto da Mãe de Jesus foi natural, e não miraculoso.
++: No século IV, um monge, Joviniano, afirmava que Maria “concebeu virgem, mas não gerou virgem”.
++: Esse monge foi, porém, rebatido por gigantes como Ambrósio, Jerônimo e Agostinho.

## Magistério:
++: Os documentos do Magistério fizeram afirmações magistrais em favor da virgindade em geral, incluindo no parto.
++: O Concílio Vaticano II faz uma formulação discreta: nascendo de Maria, Cristo “não lhe violou, mas consagrou a integridade virginal” (L. G., no. 57).

## Senso dos fiéis:
++: Vários apócrifos atestam a virgindade de Maria no parto, como a Ascensão de Isaías (n. XI), as Odes de Salomão (n. XIX) e, especialmente, o Protoevangelho segundo Tiago (XIX-XX).
++: O Protoevangelho segundo Tiago registra que havia na comunidade um falatório sobre se Maria, depois de ter gerado Jesus, tinha ou não continuado virgem.
++: Tal texto, então, descreve, segundo um realismo bem popular, a “prova ginecológica” do que a que a Santa Virgem foi temerariamente submetida e da qual sai vitoriosa (Protoevangelho segundo Tiago, XX, 1-4).
++: Há uma quadrinha popular que remonta à Idade Média e que se espalhou pelos quatro cantos da cristandade.
++: A quadrinha reza, na versão portuguesa: “No seio da Virgem Mãe / Encarnou divina graça: / Entrou e saiu por ela / Como o sol pela vidraça”.

î O sentido teológico da virgindade de Maria no parto é riquíssimo e belíssimo.

## Primeiro sentido: O parto de Jesus em Maria é divino.

++: Ou seja, o parto de Jesus em Maria é digno de Deus ou conveniente à dignidade do Verbo (Papa Hormisdas, Santo Ambrósio, Santo Tomás etc.).
++: O corpo da Virgem foi comparado por Santo Ambrósio e São Jerônimo à “porta oriental” do novo templo descrito por Ezequiel (44,2), porta que ficaria sempre fechada e só se abriria à passagem do Príncipe do Povo.
++: O corpo da Virgem é também visto como “jardim fechado, a fonte selada, só acessível ao Amado” (Ct 4,12).

## Segundo sentido: O parto de Jesus em Maria é paradisíaco.
++: É um parto paradisíaco, como teria sido o de Eva, antes do pecado.
++: A Imaculada Conceição não foi submetida à maldição do “parto com dores”, fruto do pecado (Gn 3,16).

## Terceiro sentido: O parto de Jesus em Maria é messiânico.
++: Foi um parto messiânico, como o de Jerusalém do fim dos tempos, a qual “antes de sentir as dores, deu à luz um filho” (Is 66,7), segundo Santo Irineu e São João Damasceno.
++: Como os milagres em geral, esse parto é a antecipação da plenitude da redenção no “mundo novo”, onde “o parto se dá na alegria, sem dor” (São Gregório de Nissa).
++: A tanto chegou a potência do Redentor na “primeira dos redimidos”!

î Hoje há teólogo (A. Mitterer, J. Galot, D. Fernández, L. Boff etc.) que interpretam a virgindade no parto de modo simbólico, ou seja, não como integridade fisiológica, mas apenas como integração espiritual, pois ela teria integrado plenamente na fé os incômodos da gravidez e as dores do parto.
++: Para eles, Maria teria tido um parto normal, com dor.
++: Todavia, essa posição, embora não desaprovada pela Igreja, atrita claramente com o sentido realista que a grande tradição deu à virgindade de Maria no parto, apesar de certa matriz “encratista” ou anti-sexo que se insinuou em vastos setores da cristandade quanto à compreensão da virgindade.

  Virgindade depois do parto: Maria permaneceu virgem depois do parto, não tendo relações sexuais e, consequentemente, não concebendo outros filhos.
î P Baseando-se na autêntica interpretação da Bíblica e em sua tradição, a Igreja acredita que Maria permaneceu virgem após o parto.
î Depois do nascimento de Jesus, Maria não teve outros filhos, nem consumou seu casamento com José.
î A própria Bíblia não diz claramente que ela tenha tido outros filhos.
î Como os “crentes” de hoje, já no século IV houve quem afirmasse que Maria teria tido outros filhos, apelando para a expressão do Novo Testamento “irmãos de Jesus”.
î É o caso dos antidicomarianitas (contrários à integridade virginal de Maria), do ariano Eunômio, do bispo Bonoso e, especialmente, do leigo Helvídio.
î O leigo Helvídio foi refutado brilhantemente por São Jerônimo.
î A tradição da Igreja explicou a expressão “irmãos de Jesus” de dois modos:

            ## Primeira explicação: Os irmãos de Jesus são filhos de São José e não de Maria.
++: Os irmãos de Jesus seriam, na verdade, filhos de São José, como consta de alguns apócrifos.
++: Tal modo é a explicação mais aceita ainda hoje pelas Igrejas grega e síria.

## Segunda explicação: Os irmãos de Jesus são os parentes de Jesus e não os irmãos de sangue dele.
++: Os irmãos de Jesus seriam, de fato, os parentes próximos de Jesus.
++: Disso há várias provas:
++: 1ª. prova: é o modo bíblico de falar.
++: Por exemplo, os primos Abraão e Lot se chamam entre si de “irmãos” (Gn 13,8).
++: 2ª. prova: Tiago e José, chamados em Marcos “irmãos de Jesus” (6,3), são, autenticamente, filhos de outra Maria, como se sabe lendo, mais adiante, no mesmo Evangelho(15,47;16,1).
++: 3ª. prova: Jesus moribundo não teria confiado sua Mãe ao Discípulo amado caso tivesse tido outros irmãos carnais, como já observara Orígenes.

9.4.  Aplicações do dogma da virgindade perpétua de Maria

A) A virgindade de Maria é sinal da identidade de Jesus como Messias divino

** A virgindade de Maria é sinal da identidade de Jesus como Messias divino.
-   A fé na virgindade de Maria garante a fé na divindade de Jesus, já que a maternidade garante a fé na humanidade de Cristo.
-   Em termos existenciais, a Virgem é sinal de que o Messias não é criação de potência humana, mas do poder do Altíssimo, que é o Espírito Santo.
-   A Virgem testemunha que o Salvador vem do céu e não da terra, que é graça de Deus e não conquista do homem, como explica bem o grande teólogo protestante Karl Barth.

B) A virgindade de Maria mostra que Jesus é dom de Deus

** A virgindade de Maria mostra que Jesus Cristo não é fruto do esforço humano, mas dom de Deus (cf. 1,13).
-   Tal é o sentido profundo que também subjaz às narrações de Mateus e Lucas acerca da concepção virginal de Jesus.
-   A expressão do Credo “o qual foi concebido do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria” se refere respectivamente ao lado divino (poder do Espírito Santo) e ao lado humano (limitação de Maria como virgem) do mistério da encarnação.
-    A concepção virginal de Jesus não é prolongamento natural da criação, mas ruptura e renovação como obra da redenção de Deus, pois Ele vem do alto.
-   Maria pertence à humanidade e representa a história diante de Deus, embora preservada e isenta de toda mácula do pecado.

C) A virgindade de Maria marca o início do novo povo de Deus

** A virgindade de Maria marca o início do novo povo de Deus.
-   Declara Tertuliano: “O iniciador do novo nascimento devia nascer de forma nova”.
-   Ou seja, a virgindade de Maria mostra que, assim como Jesus nasceu da Virgem por obra do Espírito Santo, também o povo da Nova Aliança não nasce simplesmente da carne e do sangue, mas nasce virginalmente da Igreja e espiritualmente do Espírito Santo.
-   É isso que sugere a genealogia do Evangelho de São Mateus (1,1-17): o velho povo de Deus (natural,) nasce do homem e da mulher e se perpetua por via carnal, enquanto o novo povo de Deus (sobrenatural) provém da Virgem e do Espírito Santo, perpetuando-se mediante a fé.
-   São João diz o mesmo: os filhos de Deus “não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus” (Jo 1,13).

D) Como Maria, a Igreja gera os filhos de Deus sendo virgem e mãe

** Como Maria, a Igreja gera os filhos de Deus sendo virgem e mãe.
-   Os fiéis são gerados virginalmente pela Igreja, enquanto fecundada pelo Espírito Santo através da Palavra de Deus e dos Sacramentos.
-   Daí ser a Igreja ao mesmo tempo virgem (enquanto concebe a vida dos fiéis como obra do Espírito Santo) e mãe (enquanto gera a vida divina em nós).
-   É o que ensina o Concílio Vaticano II na linha de Santo Ambrósio e de outros Padres (L. G., no. 64).
-   Como virgem e mãe, Maria é modelo para a Igreja, em sua função de mãe – que gera, pela pregação e pelo batismo, os filhos de Deus -, e de virgem – que conserva íntegra a fé, a esperança e o amor (L. G., no. 64).

E) Cristo veio pelo caminho da virgindade, relativizando o sexo

** Cristo veio pelo caminho da virgindade, relativizando o sexo.
-   A virgindade não é em absoluto a condenação do sexo, pois esse foi feito pelo Criador e tem sua função própria: a vida e o amor humano.
-   A vida e o amor são realidades que a graça pode assumir e elevar à ordem de sacramento do matrimônio.
-   Mas a escolha por Cristo de uma mãe virgem significa certamente a relativização da sexualidade genital, pois mostra que esta não tem o poder de conferir a vida nova, espiritual, salvífica, a vida da graça.
-   O sexo é apenas sinal daquela vida mais alta, e não seu instrumento, e isso é muito relevante num como o nosso, onde o sexo é idolatrado.

F) A virgindade de Maria é profética no mundo atual

** A virgindade de Maria é profética no mundo atual.
-   A virgindade de Maria ajuda os homens de hoje a romperem com a visão errada de pessoa humana e de sexualidade.
-   A maternidade virginal de Maria pode ajudar a superar preconceitos machistas e moralistas, que consideram o corpo como pecaminoso, e a mulher, lugar de tentação e desvio.
-   Em Maria, o corpo humano, especialmente o da mulher, se tornou para sempre espaço onde o Espírito do Altíssimo pousa e faz morada.
-   Todo ser humano, independente de sua condição sexual, tem algo de virgem, e pode se tornar templo de Deus e espaço aberto das sementes do Reino.

G) A virgindade de Maria é modelo de doação para os cristãos

** A virgindade de Maria é modelo de doação para os cristãos.
-   Por opção livre, Maria permaneceu virgem, consagrando-se a Deus pela castidade, e, consequentemente, sua decisão generosa é modelo de doação para os cristãos.
-   Sua virgindade, amor-doação ao Senhor, foi inseparável da fé, pobreza, obediência, e assim tornou-se fecunda pelo Espírito Santo.
-   No mistério da Igreja, esta virgindade reúne duas realidades: Maria é toda de Cristo e toda servidora dos homens.
-   Assim quer ser a Igreja: unida a Cristo e Mãe de todos os homens.

H) A virgindade de Maria é fonte de inspiração para os pais terrenos

** A virgindade de Maria é fonte de inspiração para os pais terrenos.
-   Pela sua virgindade, Maria se colocou totalmente a serviço de Jesus e da salvação dos seres humanos, contribuindo para que eles renascessem para a vida espiritual.
-   Os pais começam gerando filhos para este mundo, no sentido de gerar vidas físicas.
-   Agora, se querem gerá-los para a Igreja e o Reino de Deus, não lhes basta a geração carnal, biológica, pois a fé não se transmite com a carga hereditária.
-   Os pais precisam ainda gerar filhos na fé e para fé, esse é um parto ao mesmo tempo virginal e espiritual.

I) A virgindade de Maria abre caminhos para os que querem ser somente do Senhor

** A virgindade de Maria abre caminhos para os que querem ser somente do Senhor.
-   Em sua virgindade, Maria mostra a vocação específica da consagração, que assume a sexualidade, relativizando sua mera expressão genital (carnal) e superando-a em vista de um amor transgenital, ou seja, agápico, oblativo, generoso e gratuito.
-   Por meio da virgindade, Maria mostra uma existência totalmente centrada no serviço do Messias, uma total disponibilidade ao desígnio de Deus, pois ela viveu isso não só no espírito, mas também no corpo.
-   Por causa dessa atitude, torna-se exemplo para multidões que, após ela, irão consagrar suas vidas, na virgindade.
-   Os castos e celibatários renunciarão ao matrimônio e à família, não porque os considerem negativos, mas porque querem viver totalmente para Deus e para os irmãos.


Komentarze

  1. Faltou mencionar livro, capítulo e parágrafo da citação de Orígenes que não consegui em nenhum lugar em que ela é citada.

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Nieustanne potrzeby??? Nieustająca Pomoc!!!
Witamy u Mamy!!!