Dona Júlia: santa ao pé da porta


Dona Júlia: santa ao pé da porta

“Esta é muitas vezes a santidade ‘ao pé da porta’, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus”. – Papa Francisco

Sobre estes, o Papa Francisco assim se expressou: “Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade ‘ao pé da porta’, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da ‘classe média da santidade’” (GE 7 – Gaudete et Exsultate – documento sobre a santidade).
Título:  Dona Júlia: santa ao pé da porta 
Formato:  Papel  - Veiculação:  Físico 
ISBN foi registrado com sucesso: 978-65-00-05631-0 .


Conteúdo
1.      Da igreja de tijolo à Igreja viva – Júlia Maria
2.      Nossa padroeira – Perpétuo Socorro – Júlia Maria
3.      Rezava em silêncio em frente ao Ícone  do Amor - Joel
4.      O sentido da vida – Padre Tadeu Pawlik
5.      Ordenação diaconal na “catedral da favela” – bispo Ceslau
6.      Evangelizando as periferias – Pe. José
7.      Testemunho de Maria Elisa
8.      Testemunho de Maria Aparecida
9.      Testemunho de Joel Oliveira do Nascimento
10.   Dados sobre o bairro





Minha mãe, Júlia

...EU SOU SUSPEITO PRA FALAR ALGO DA MÃE ...

O QUE FALAR DA MINHA MÃE?
MINHA RAINHA?

 A MULHER QUE DEU ME A VIDA
QUE CUIDOU DE MIM A VIDA TODA

APRESENTOU-ME O MUNDO
 E AO MESMO TEMPO
 PROTEGEU-ME DELE (do mundo).

Agradece André, o seu filho






Eu sou Júlia Maria Silva Oliveira.[1] Morono Bairro da Paz em Salvador. Participo das atividades da Igreja Católica desde início da comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro na Área Verde. Em 1988, conheci padre José, naquele tempo ainda seminarista redentorista. O nosso encontro se deu no bairro Malvinas. O meu desejo era ter um lugar para poder participar da Missa aos domingos. Passadas algumas semanas apareceu aquele homem mencionado e me indicou o lugar onde a comunidade se reunia. Ao chegar ao lugar vi um humilde barraco, muito pequeno, coberto de papelão, com predes de pano e o chão batido. Dai em diante pensamos em construir uma capela. Mas onde? O lugar indicado era “reservado” para construir a Escolinha da Conceição, que acabou doando o terreno para a nossa igreja. O jovem José fazia a experiencia pastoral aos fins de semana na nossa comunidade da Área Verde. Damos o início a construção da igreja. O terreno era cheio de bananeiras. Em mutirão fizemos a limpeza: trabalhamos o dia inteiro. Devido ao sol muito forte o seminarista José ficou todo queimado, com febre e os lábios estourados.

Depois de algum tempo da construção com as paredes a meia altura aconteceu a primeira Missa – era Natal. Tivemos a Missa do Galo muito bonita com as apresentações preparadas pelas crianças. Depois da igreja pronta a situação melhorou: a comunidade tinha o lugar para as celebrações, catequese e encontros.  Logo depois veio a construção do Centro Comunitário São Geraldo. Com o padre José aprende muito ou quase tudo que eu sei hoje. A nossa igreja dedicada à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi a primeira construção “verdadeira”, de tijolo, bloco, colunas e telhado coberto com telha.
Alguns anos depois veio o tempo das Santas Missões Redentoristas. Uma bênção que envolveu toda a invasão Malvinas. Comecei a engajar me nas atividades da igreja: tornei me cantora, junto com Conceição e Nair e fazíamos as belas encenações. As Santas Missões durante uma semana trouxeram muitas procissões, celebrações e a participação de muitas pessoas. Essa primeira Missão deixou muitas saudades e ótimas recordações para todos os moradores das Malvinas, hoje Bairro da Paz. Quando acabou, deixou saudades. Mas eu continuei a especializar me cada vez mais no canto, leituras e arrumação. O padre José me ensinou a cantar. Me incentivou a falar para um grupo. Aí, até palestrante eu me tornei.
Um acontecimento mais lindo que já vi foi a ordenação diaconal no nosso bairro. Aconteceu dia 8 de dezembro de 1990 na Praça das Decisões.  Forma ordenador pelo bispo Dom Ceslau Stanula três seminaristas: Antônio Niemiec, Cristóvão Mamala e José Grzywacz – os nossos futuros padres - missionários.



Nas origens de nossa comunidade, quando  José perguntou que santo/padroeiro a gente queria ter – imediatamente respondi: Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Por que esse nome? – porque naquele tempo aqui teve muita tristeza e a gente era pobre. Lembro me de um Natal: o nosso almoço festivo foi ovo com sal e farinha. Logo fomos presenteados como ícone e dois anjos. Eu tornei-me tão devota de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que tudo que peço a Deus – peço p por Ela. Com os Redentoristas aprendemos a Novena Perpétua. Depois da saído dos Redentoristas a diocese mandou nos o padre André que fez muito pelas escola. Tivemos a Missa por quinzena. Como devota de Nossa Senhora lembro me de várias graças que Ela me concedeu. A maior delas foi conduzir os meus filhos sempre no caminho do bem, fazendo deles bons filhos com um bom caráter e boa índole.  Uma outra graça de Nossa Senhora foi quando eu estava em casa sem nenhuma comida. Quando já voltava para casa falei: “Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que eu ao menos achasse 5.00 reais. Minutos depois eu achei 20.00 reais. Gente, não foi horas não! Foi minutos depois. Diga se não foi um milagre? Quero agradecer por todas as graças a Deus, a Nossa Senhora e ao padre José Grzywacz, missionário redentorista.

Eu desejo que Deus lhe dê muitos anos de vida e saúde! Sua bênção.
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro – rogai por nós que recorremos a Vós!
Júlia Maria Silva Oliveira (fundadora da comunidade), Salvador, 26.03.2020






(Joel Oliveira do Nascimento do bairro do Tororó)
“Sempre que chega a tarde, meu pensamento lembra Maria...”, a devoção à Virgem Maria para mim, vem desde ainda pequeno, observando, em casa, a movimentação de minha mãe para às 18:00horas, colocar no rádio a Oração da Ave Maria. Isso acontecia todos os dias. O tempo foi passando e, já um pouco mais crescido, fui entendendo um pouco mais sobre o porquê dos  Títulos dedicado à Virgem. Gostaria de falar um pouco de uma experiência que vivi anos atrás ao ser chamado para ajudar em uma das pastorais desenvolvidas pelos Redentoristas aqui em Salvador. Já conhecendo os Missionários Redentoristas, que trabalhavam na minha Paróquia de origem, também dedicada à Nossa Senhora, sob o título de Imaculada Conceição, título este que mais tarde vim entender tratar-se de um dos grandes dogmas da Santa Igreja.
José Grzywacz, um dos três seminaristas, que já há algum tempo, haviam chegados da Polônia para completar os estudos e formação na então Missão Redentorista da Bahia, convidou-me para participar da ação Pastoral missionária na favela das Malvinas, hoje Bairro da Paz. O seminarista José, atuava na Área Verde, um dos setores existentes naquela invasão, comunidade dedicada à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Na pequena capela não havia o Sacrário, e sim uma grande cruz de madeira ladeada pelo Ícone da Virgem Mãe do Perpétuo Socorro. E, eu me acostumei há sempre que chegava, entrava na capela e me dirigia em direção à cruz e fazia o em Nome do Pai, depois me colocava em frente ao Ícone e rezava em silêncio sendo observado pelos que lá já se encontrassem. Do convívio com o seminarista José e também, para poder responder à alguma indagação de algum dos membros da comunidade, fui conhecendo e me apaixonando pela história do Ícone e sua mensagem.: quando surgiu; quando, por quem e porquê foi entregue ao Redentoristas; qual a Missão dada à Congregação; ao que cada um dos quatro personagens quer nos dizer, e etc... Para a conclusão do curso de Teologia o seminarista José escolheu falar justamente sobre Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e, todos nós que estávamos mais próximos a ele, desfrutando do seu convívio, íamos bebendo dessa fonte e, tornando-nos devotos mais fervorosos e sentindo como nossa a Missão dada aos Redentoristas. Passando a fazer parte do primeiro grupo de Missionários Redentoristas Leigos, essa devoção aumentou, pois agora éramos parte da Congregação, imbuídos da mesma Missão: Evangelizar com um olhar de predileção pelos pobres e divulgar a devoção à Mãe do Perpétuo Socorro. Foi um momento de grande alegria para  todos nós, no ano de 2016  a celebração do Jubileu de 150 anos da entrega do Ícone pelo Papa Pio IX aos Redentoristas.

Participando do curso de Mariologia, ministrado pelo Pe. José Grzywacz,  e acompanhando o lançamento de alguns dos seus livros, continuo a crescer no conhecimento e devoção e amor à Virgem Maria e, os grandes dogmas que a envolvem: Maternidade divina, Virgindade Perpétua, Imaculada Conceição e Assunção. Agradeço a Pe. José, companheiro de missão, e, rezo à Virgem Mãe do Ícone do Amor, que continue com seu olhar misericordioso sobre todos nós e que, nos apresente sempre o seu Menino Jesus, que sempre foi, é, e continuará sempre a ser o Centro de nossas vidas.

Joel Oliveira do Nascimento– Salvador – Tororó, 2020
4.      O sentido da vida

Victor Frankl, conhecido como psicoterapeuta, diz que o homem não deve perguntar qual é o sentido da sua vida. Mas deve perguntar qual é a resposta que ele deve dar à sua existência. Padre José deu a resposta à sua existência a serviço a Cristo, nos pobres e abandonados, na Congregação do Santíssimo Redentor. Chegando para o Brasil, no ano de 1988, logo reconheceu as estruturas injustas e  exclusão de pessoas no Brasil, desde o tempo da colonização. Poucos ricos comandam o país e a maioria (80%)é pobre. Precisa ainda destacar o forte racismo, o desprezo pela raça negra, a qual foi negado, e até hoje é negado, o direito de uma vida digna. Reconhecer esta realidade exige da pessoa inteligência, reflexão e sensibilidade humana e evangélica, tanto mais que as ideologias oficiais, através dos meios de comunicação, oficialmente negam esta realidade. Reconhecendo esta situação, o padre José fez opção radical a favor dos pobres, como recomenda o carisma redentorista, para anunciar o Evangelho aos pobres. Padre José sempre está presente nos bairros pobres periféricos nas Santas Missões, no sertão baiano e no meio dos jovens.
Vendo a extensão da messe do Senhor,  procurou formar os leigos para a missão, fez trabalho organizado e inteligente na promoção vocacional para a Congregação Redentorista.
Como confrade, sempre caridoso, principalmente na hora da doença e aflição, assíduo e devoto de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
Eis a resposta que o padre José deu à sua existência através das atitudes e atos concretos. Jesus diz: “Deixai tudo para o Reino”, e o padre José deixou.
Pe. Tadeusz Pawlik[2] CSsR, Salvador, janeiro 2019.



Escrever sobre o padre José Grzywacz, missionário redentorista, não é fácil. É como se quiser agarrar o luar nas mãos. É a pessoa inquieta e sempre à procura de algo novo, de melhorar a face da Terra, segundo o Plano de Deus. Conheço-o desde seminarista, teólogo, na Universidade Católica em Salvador, porque veio da Polônia como seminarista-missionário. Fez, com os outros colegas, a experiência pastoral no bairro pobre Malvinas, no caminho do aeroporto internacional de Salvador. Lá, naquele bairro-favela, na frente da capela improvisada e no altar improvisado, rodeado de alguns colegas da universidade e do povo simples, crianças descamisadas, brincando com a sua bola no barro (choveu bastante), recebeu a Ordenação Diaconal, na presença dos professores (surpresos e admirados, pela escolha da “Igreja” para este evento) junto com os seus colegas: Pe. Antônio Niemiec e Cristóvão Mamala.

O que ele assume leva a cabo com dedicação e empenho, até às vezes sendo “chato” para com os outros, porque fala da sua missão, oportuna e inoportunamente. Como Promotor Vocacional, acompanhou vários confrades na caminhada ao sacerdócio e seus primeiros passos na vida sacerdotal e missionária. Vive com a Missão e este é o seu projeto de vida. Como pároco da paróquia missionária e pobre, em Itabuna, revitalizou-a, com os melhoramentos na sua infraestrutura, o que lhe custou muito sofrimento e desgaste com muitas andanças a procura das autoridades municipais, denunciando a corrupção em alguns setores, etc. Reanimou a comunidade com a devoção a nossa Senhora, organização de romarias mensais de vários setores e pastorais das paróquias vizinhas; instalou a Novena Perpétua.
Dedica-se ao estudo da Mariologia. Neste campo contribuiu bastante na divulgação da devoção mariana por meio das palestras, escrevendo livros e artigos de considerável valor científico e devoção popular. Ultimamente, viajou frequentemente com os seus “instrumentos do trabalho”, notebook, data-shows, o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e outros, para dar palestras e cursos sobre Mariologia, pesquisando também os fenômenos das “revelações” de Nossa Senhora, etc. Enfim, o padre José é o verdadeiro missionário, inquieto, dinâmico e preocupado com os problemas da injustiça no mundo político, mas também na Igreja. Só nestes pontos aqui descritos, como uma amostra das suas atividades, podemos ver a sua mente inquieta na procura de sempre algo novo.
Descrever em poucas palavras as atividades do padre José é tão difícil como agarrar o luar em nossas mãos.
Dom Ceslau Stanula, CSsR, bispo emérito de Itabuna –
Salvador, 2019.



A favela Malvinas surgiu nos anos oitenta do século passado, nas proximidades do aeroporto de Salvador. Desde o ano de 1998, os missionários redentoristas atendiam pastoralmente essa área. Foi o padre Tadeu Pawlik (apelidado Cabeça Branca) que ”descobriu” essa periferia abandonada de tudo e por todos. Eram  mais ou menos 30 mil pessoas vivendo em condições precárias. Um grande problema foi o narcotráfico e as gangues. Foi exatamente nesse lugar que fiz o meu “batizado” pastoral como recém-chegado seminarista. Fiquei responsável pela área chamada “Área Verde” onde, em mutirão, construímos a capela Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Depois de alguns meses, já éramos “conhecidos no pedaço”, mas mesmo assim as mulheres da comunidade nos levavam até o ponto de ônibus. Foi nessa periferia que aconteceu o meu diaconato.
Durante as Santas Missões Redentoristas, na favela Malvinas, participou conosco um padre polonês, branco, que não era conhecido dos traficantes. No dia da abertura da Missão ele foi barrado. A Missa não aconteceu. Os homens do tráfico pensavam que fosse um policial camuflado e até o ameaçaram de morte. Somente após a intervenção do padre Tadeu, a Missão continuou normalmente. Depois de muito trabalho de base e depois da saída dos redentoristas a diocese de São Salvador instalou lá uma nova paróquia. Deixamos nessa área três igrejas, duas capelas e duas creches. Hoje o bairro chama-se “Bairro da Paz” e tem até a estação de metrô com o seu nome.
Pe. José Grzywacz, CSsR


7.      Testemunho de Maria Elisa, MRL
Quando cheguei ao bairro eu não conheci ninguém. Os meus meninos faziam catequese em Mussurunga. Depois alguém me informou que lá no Birro da Paz, na Área Verde tinha uma capela. Então chegado lá na capela, eu novata, vi a Júlia, Nair e Conceição trabalhando, fazendo as apresentações na igreja. Daí em diante comecei a participar. Acompanhei a construção da escola São Geraldo – inclusive o padre José e padre Tadeu estavam juntos. Quanto a comunidade ela é sempre firme e fiel. Ajuda na limpeza , nos eventos, apresentações: sempre disposta a ajudar e a participar. Júlia é uma pessoa boa, comunicativa, prestativa. Eu gosto muito de trabalhar com ela. Gosto dela como pessoa e como irmã.
8.      Testemunho de Maria Aparecida
Conheci Júlia em 1992 aqui na comunidade. Depois em 1996 os filhos dela: André e Gilson fizeram a Primeira Comunhão e foram crismados. Júlia trabalhou como voluntária, junto com Maria Elisa, na creche de Conceição. É uma membra ativa da comunidade e sempre acompanha as Festas de Nossa Senhora e participa da Novena Perpétua.

9.      Dados sobre o Bairro da Paz
Fruto de invasão de uma área pertencente ao Município, a ocupação começou em 1982 com 1.230 famílias. O assentamento consolidou-se ao longo da década de 1980, em meio a disputas entre os moradores e o governo, incluindo diversos enfrentamentos com a polícia, o que tornou o local um verdadeiro campo de batalha, na época. Em alusão à situação, o primeiro nome do assentamento - Malvinas[3] - foi uma referência à Guerra das Malvinas, entre a Grã-Bretanha e a Argentina, conflito deflagrado também no ano de 1982.
A data de fundação adotada é o dia 23 de abril de 1982. Pessoas de diversas localidades e, inclusive, do interior da Bahia ocuparam irregularmente um terreno que pertencia à Prefeitura Municipal. A construção de avenidas surtiram um efeito de supervalorização da área, que foi o principal motivo da reação das autoridades locais. Na época das primeiras ocupações, em 1982, o governo tentou remover a população diversas vezes, mas as pessoas voltavam e reconstruíam suas casas, mesmo sujeitas aos abusos das autoridades. A repressão sofrida não surtiu efeito, de forma que a população sempre voltava e reconstruía suas residências. A gravidade dos conflitos entre eles e as autoridades foi aumentando e o caso ganhou destaque na imprensa baiana. Enquanto isso, a Prefeitura usava de força policial para demolir as casas improvisadas, que a comunidade insistia em reconstruir. Diante da resistência dos moradores, a Prefeitura partiu para a negociação, quando conseguiu transferi-los para uma área em Coutos, a Malvinas de Coutos. Naturalmente, depois de perceber que foram ludibriados e que o local não correspondia com o da ocupação inicial por ser um local de difícil acesso, a maioria dos moradores saiu de lá e voltou a ocupar a mesma área de antes, em 1986. Mais uma vez houve o uso da força policial e derrubadas, mas o governo de Waldir Pires interveio para que o conflito cessasse, enfim. Os moradores foram cadastrados e foi elaborado um projeto para o bairro, que não chegou a concretizar-se. Com o término das derrubadas, o bairro estabilizou-se e cresceu.
Na década de 1990, as primeiras reivindicações populares começaram a ser atendidas, dando ao local características de bairro: instalação de telefones públicos, transporte coletivo, rede de energia elétrica, implantação de uma escola e um posto de saúde. Em 1992, entidades ligadas à Igreja Católica,[4] que acompanharam o processo de ocupação, sugeriram um plebiscito para a mudança do nome do bairro, que passou a se chamar: Bairro da Paz.
De acordo com o IBGE, em 1991, havia 11.241 habitantes; em 1996, esse número pulou para 40 mil e, hoje, há cerca de 65 mil habitantes no bairro. Ou seja: nos dez anos seguintes a reocupação, o número de moradores aumentou em mais de 300%, enquanto, de 1996 até hoje, o aumento foi de 62,5%. Em 1996, o bairro foi ligado ao abastecimento de água potável pela Embasa. Nessa época, lá já havia luz elétrica. O título de posse foi entregue aos moradores no segundo mandato do prefeito Antônio Imbassahy.
A partir da década de 80 do século passado, com o agravamento da crise económica e o início do processo de redemocratização do país, as populações mais carentes de Salvador, cansadas da segregação espacial urbana que, gradativa e historicamente, as havia deslocado para as áreas periféricas, decidiram ocupar colectivamente um espaço entre a Av. Luiz Vianna (Paralela) e a orla marítima.
Na época, essa ocupação foi chamada “Invasão das Malvinas”. A ocupação não foi pacífica: a comunidade foi muitas vezes intimidada e reprimida por acção policial através do derrube de cercas e barracos, na tentativa de barrar a expansão da ocupação.
Apesar dos esforços públicos, a ocupação resistiu e muitos dos desalojados retornaram ou mantiveram o seu antigo espaço, apoiados e reforçados por novos ocupantes, que não paravam de chegar. O poder público não conseguiu barrar o processo contínuo de ocupação.
A partir de 1986, desenvolve-se a luta comunitária pelo direito à moradia, que culmina com a implantação do programa de regularização fundiária pela administração municipal (1989), através da outorga da Concessão do Direito Real de Uso (CDRU), viabilizada pelo acordo de modificação da estrutura fundiária da gleba realizado entre a Prefeitura Municipal de Salvador e os herdeiros do antigo foreiro.
Em 2001, foram registados 13.289 domicílios, dos quais 99,76% possuíam utilização permanente, ou seja, as pessoas que ocupavam o imóvel residiam no local.
A população actual do bairro é estimada em 50.306 pessoas que habitam em domicílios de diversas tipologias construtivas, desde casebres com piso de terra batida até casas construídas em tijolo sem reboque. Hoje o bairro tem as suas ruas principais asfaltadas e conta com serviços de água e energia eléctrica.
Elaboração: Pe. José Grzywacz, CSsR











33 anos na Bahia
Área Verde – Aniversário 2020
https://youtu.be/Gzxddf365qk
Votos Perpétuos em Bom Jesus da Lapa - 1990
25 anos da ordenação sacerdotal – Área Verde



POEMA PARA UMA AMIGA - (de Joel para Júlia)


Da amizade sincera já ouvi dizer
Que é remédio e abrigo para aquele crê
Disso não duvido, até trago comigo
A alegria de ter um verdadeiro amigo.
Das minhas andanças mundo afora
Algo aconteceu e eu lembro agora
Foi na Área Verde, no Bairro da Paz
Conheci D. Júlia, não esqueço jamais.
Mulher firme e alegre, sorriso no rosto
Solidária e Amiga, não tive desgosto
Nas Missas e festas sempre presente
Com Gilson e André marchando na frente.
O que há D. Júlia? Como você está?
Soube que caiu, alguém veio contar
Levanta minha amiga e começa a andar
A comunidade precisa, não pense hesitar
A Virgem é Socorro e não vai lhe faltar
Levanta minha amiga, volto a lhe cobrar
Lembra da Quadrilha? vamos dançar?
Então levanta minha amiga e nem pense faltar!
Há muito não lhe vejo, senão em oração

Envio prá ti através de outro amigo
Esse recado sincero, conte comigo!
Um grande abraço D. Júlia!
(Joel Oliveira do Nascimento)






Paz e bem, a nossa querida Júlia. Ela é  pedaço da história da comunidade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro da Área verde. Mulher forte, lutadora, corajosa e de muita fé! Que o  Senhor te abençoe, proteja, cubra com seu manto e livra de todo o mal.
Quezinha Avelina – Praça das Decisões


[1] Júlia Maria Silva Oliveira, nascida aos 15 de julho de 1954, em Santo Antonio de Jesus - BA
[2]              Pe. Tadeu Pawlik, CSsR (apelido “Cabeça Branca”), “O MELHOR DE NÓS”. “Aquele que gostava dos pobres”. Trabalhava nas favelas e periferias, apoiou as Santas Missões Populares e os Missionários Redentoristas Leigos. Descansou em 27.03.2019, em Salvador, enterrado em Bom Jesus da Lapa.

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Bairro_da_Paz_(Salvador)
[4] A presença dos Missionários Redentoristas. Como padre recém-ordenado estive lá.

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